Introdução
“A consciência ecológica levanta-nos
um problema duma profundidade e duma vastidão extraordinárias. Temos de
defrontar ao mesmo tempo o problema da vida no planeta terra, o problema da
sociedade moderna e o problema do destino do homem. Isto nos obriga a repor em
questão a própria orientação da civilização ocidental. Na aurora do terceiro
milênio, é preciso compreender que revolucionar, desenvolver, inventar,
sobreviver, viver, morrer, anda tudo inseparavelmente ligado”.
Edgar Morin, apud LAGO & PADUA, 1984, p.
6.
Ninguém mais tem dúvida de que
estamos vivendo em um mundo incerto, complexo e plural. Mas cheio de
contradições, paradoxos e injustiças com problemas e necessidades de toda ordem
(MORAES e NAVAS, 2010). São problemas sociais e ambientais, em especial, sem
precedentes na história que anunciam uma crise civilizatória ou planetária
(MORIN, 2000). Não obstante, por trás dessa crise ainda persiste a crença de
que, com a contínua inovação tecnológica, a civilização caminha inexoravelmente
para superar os limites naturais que impediram a expansão do progresso
humano no decorrer da história (PETERSEN et al., 2009). Mas a gravidade disso
reside, contudo, no fato de que o modo de vida e o paradigma civilizatório que
o sustenta continua pondo em risco a própria sobrevivência da espécie humana.
Do ponto de vista filosófico esse
aparente frisson para com a inovação
tecnológica é herança da concepção positivista de ciência que em nome da
‘neutralidade’ e da ‘verdade científica’ vem dando sustentação teórica ao
paradigma dominante, e que sempre esteve a serviço do capital, a exemplo do que
ocorreu com a modernização da agricultura, via revolução verde, em que a
tecnologia não passou de mera mercadoria. Ademais, essa concepção de ciência é
excludente, pois reconhece como válido somente o conhecimento científico,
transformado em ideologia e mecanismo de dominação (GOMES, 1999). Portanto, a
superação dessa crise pressupõe uma radical mudança na maneira de pensar, gerar
e aplicar ciência e tecnologia (TOLEDO, 2012). E se por um lado a ciência
moderna é dominante, por outro lado, não é única, pois não há uma só ciência,
mas muitas formas de conceber e fazer ciência e produzir tecnologia.
A Agroecologia surgiu como ciência
recentemente, embora como prática seja tão antiga quanto à própria agricultura.
Trata-se de um campo do conhecimento que nasce do diálogo entre o conhecimento
científico e os saberes populares ou endógenos. A Agroecologia, ao traçar
caminho próprio, distanciou-se do engessamento disciplinar e linear e buscou
fundamentação na interface com outras áreas do conhecimento (agronomia,
ecologia, sociologia, antropologia, educação, economia, comunicação, física,
história, etc.) para fundar sua própria matriz teórica. Segundo Gomes (1999), a
Agroecologia ainda não pode ser considerada como um novo paradigma, como algo
puro e acabado, que represente uma ruptura e que oriente a produção e
circulação do conhecimento na agricultura. Isso poderá vir a ocorrer, mas
depende de esforço intelectual, prática política, ajustes institucionais, entre
outras coisas. “A Agroecologia é entendida como um enfoque científico destinado
a apoiar a transição dos atuais modelos de desenvolvimento rural e de
agricultura convencionais para estilos de desenvolvimento rural e de
agriculturas sustentáveis” (CAPORAL e COSTABEBER, 2000). O enfoque
agroecológico pode ser definido como “a aplicação dos princípios e conceitos da
ecologia no manejo e desenho de agroecossistemas sustentáveis” (GLIESSMAN,
2000). A Agroecologia também tem sido
entendida como um campo de conhecimento transdisciplinar que oferece os princípios
teóricos e metodológicos básicos para possibilitar o desenho, redesenho e
manejo de agroecossistemas sustentáveis e, além disso, contribuir para a
conservação da agrobiodiversidade, da
biodiversidade e da diversidade sociocultural.
Segundo Toledo (2012) encontra-se em
curso na América Latina e Caribe um tríplice processo de transformação
desencadeado pelo campo agroecológico: i) cognitivo, epistêmico ou científico;
ii) prático ou tecnológico e iii) social e/ou político. Não se sabe ao certo se
é o conhecimento que provoca as mudanças tecnológicas e sociais ou se são os
movimentos sociais e políticos que induzem a um salto epistêmico e tecnológico
ou, ainda, se é um complexo de sinergias e reciprocidades resultantes de uma
atuação conjunta. O que se sabe é que
implica um mesmo processo que articula essas três dimensões que operam de forma
articulada promovendo mudanças substanciais nas sociedades latinoamericanas.
Gomes (1999) anunciou uma
epistemologia para a Agroecologia, consubstanciada no pluralismo metodológico:
pluralidade de contextos e soluções para a produção e circulação do
conhecimento; abertura aos conhecimentos tradicionais como válidos; implicação
do contexto social e suas demandas na produção e circulação do conhecimento e
combinação de técnicas de pesquisa variadas, quantitativas e qualitativas, numa
perspectiva interdisciplinar. A esse pluralismo poderia ser atribuído a
idéia-força da convivência e relação entre o ser humano e a natureza, trazendo
a ciência para este mundo em que as coisas acontecem: o mundo da vida, das
mulheres e dos homens. Nessa perspectiva o pluralismo resulta numa ciência mais
humanista, democrática, dialógica e inclusiva. Mas é necessário adotar não só
ações de tipo interdisciplinares ou transdisciplinares como também promover o
diálogo de saberes, articulando os conhecimentos científico e tradicionais. Ou
seja, é preciso superar a concepção de ciência como fonte única do conhecimento
válido.
Antes, porém, de adentrar naquilo que
poderíamos denominar de Educação em Agroecologia é necessário reconhecer que a
educação, em geral, também foi vitimada pelo reducionismo da ciência moderna
que priorizou a fragmentação, a compartimentação e a especialização do
conhecimento com predominância do ensino puramente disciplinar (MORIN, 2000).
Imaginava-se que para melhor estudar os fenômenos e os fatos era necessário
dividí-los em partes tantas vezes quanto fosse possível para compreender a sua
totalidade. Isso como se sabe não foi possível, pois a soma das partes é maior
ou menor do que o todo, dependendo das propriedades emergentes resultantes das
suas interações. Eis aí o princípio da fragmentação e os problemas dela
decorrentes: o conhecimento disciplinar não dá conta de explicar a contento os
fenômenos complexos da atualidade.
A ciência moderna, ao produzir um
conhecimento disciplinar segregou a organização do saber na medida em que foi
orientada para policiar as fronteiras entre as disciplinas, reprimindo as
iniciativas interessadas em transpô-las. A fragmentação do conhecimento é
prática corrente na maioria dos cursos, em especial, nas Ciências Agrárias.
Ademais, os projetos político-pedagógicos desses cursos apresentam um enfoque
tecnicista, em detrimento de uma formação mais integradora e sistêmica
(SARANDÓN, 2002). A própria reformulação dos projetos político-pedagógicos,
quando ocorre, se materializa na simples inclusão e exclusão (geralmente das
disciplinas da área da sócio-economia) de disciplinas ou de conteúdos, ou
quando muito na alteração da carga horária do curso e das disciplinas.
Essa marca da fragmentação persiste
ao longo do processo formativo e se prolonga no exercício profissional. Fato é
que a maior dificuldade (dentre tantas outras) dos profissionais em Ciências
Agrárias recém-formados ao se depararem com situações complexas e diversas como
o universo da agricultura familiar é, em grande medida, a incapacidade para
relacionar os conhecimentos vistos isoladamente nas disciplinas. Mas esse,
talvez, não seja um fenômeno que acomete somente os educandos, pois os educadores
também passaram pelo mesmo processo de formação e com um agravante: vitimas da
hiperespecialização apenas repetem o que aprenderam com seus mestres, dando a
idéia de um ciclo vicioso e sem fim.
Isso remete para a necessidade de uma
ruptura epistemológica com o paradigma educacional vigente, a luz de um
pensamento crítico sobre os pressupostos teóricos que o orientam, para uma
(re)elaboração da prática docente, que exige sobretudo outras estratégias,
posturas e atitudes pedagógicas diante de práticas de ensino insuficientes para
uma compreensão significativa do conhecimento e que comprometem a aprendizagem.
Mais do isso tornou-se imperativo experimentar novas maneiras de se tratar e
trabalhar o conhecimento que rompam com as fronteiras das disciplinas de modo
que novos arranjos e combinações dos conteúdos sejam vivenciados em nome de uma
formação mais integradora, holística e emancipadora.
É nesse cenário que nasce a Educação
em Agroecologia.
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